Sindicalismo polonês e socialismo são revistos por cult dos anos 80

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ZONA LIVRE: Do veterano diretor tcheco Jerzy Skolimowski, “Moonlighting” foi aclamado pela crítica em seu lançamento, em 1982. É contemporâneo da mobilização política ao redor do “Solidariedade” — sindicato histórico, liderado por Lech Walesa, com o objetivo de contestar o socialismo de matiz soviético na Polônia. A recepção calorosa do filme nos países capitalistas coincide com o extensivo apoio conferido ao movimento.

Basicamente, trata da reforma de um apartamento londrino por quatro trabalhadores poloneses clandestinos, uma mão-de-obra robusta e barata que não cobra hora extra e labora mesmo nos feriados de final-de-ano. Como pano de fundo, no noticiário dos jornais e da TV, ocorre um golpe de estado na terra natal dos operários, como resposta ao movimento sindical de contestação do regime. A composição resulta minimalista e a ação se desencadeia num crescendo dramático até a previsível (e violenta) conclusão.

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Todo o filme constitui uma metáfora do socialismo real. Da mesma forma que os governos autoritários socialistas, o mestre-de-obras e eletricista Nowak (Jeremy Irons) oprime sistematicamente os seus comandados, que aceitam a contragosto a sua autoridade, porque é o único que fala inglês.

Abusando do poder que lhe é conferido, Nowak aliena e esconde a verdade dos trabalhadores, explora-lhes tiranicamente o trabalho, exige-lhes metas impossíveis de cumprir e chega mesmo a apropriar-se de seu dinheiro. Ele mente desde o começo do filme, quando é inquirido pelas autoridades de imigração, salvo quando responde não pertencer ao Solidariedade – informação relevante para as interpretações da obra.

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Tudo isso (supostamente) para o bem dos operários, como Nowak confessa enquanto narrador em “off” da ação. Simultaneamente, o protagonista se mostra um eficiente punguista, ao aplicar pequenos golpes num supermercado e numa loja de roupas, provendo o grupo de materiais e alimentos. A narrativa autojustificante dá a entender que o mal praticado por ele mesmo teria sido necessário, como também entendem os comitês centrais socialistas ao alienar as massas da verdade de suas condições de trabalho.

Em “Moonlighting”, Skolimowski articula um filme minimalista, com seqüências linearmente construídas, e direto ao apontar o inimigos e desferir-lhe a crítica política. Simples e competente, o longa tem o seu apelo, mas brilha menos – talvez ofuscado – pelo mais expressivo “Homem de Ferro” (1981), de Andrzej Wajda.

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Moonlighting (Polônia/Reino Unido, 1982)

+ Bruno Cava

Bruno Cava é escritor, cineclubista, roteirista, colunista do Le Monde Brasil online e Revista Global e publica o blog Quadrado dos Loucos.

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