Fúria de Titãs 2 comprova que sempre é possível piorar

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É com uma sensação de frustração que o espectador sai do cinema após a exibição de “Fúria de Titãs 2″. A questão é perceber como os produtores do novo filme tinham em mãos uma segunda oportunidade de oferecer ao público um legítimo filme épico de aventura e fantasia – com monstros mitológicos que vivem no imaginário popular, como a quimera ou o minotauro – e tiveram a capacidade (ok, sejamos sinceros: a incompetência) de entregar uma aventura de terceira categoria com um roteiro risível e uma direção não menos que desastrosa.

Dirigido por Jonathan Liebesman (que já havia cometido “Invasão Mundial: Batalha de Los Angeles”) e escrito pelos mesmos responsáveis por “A Garota da Capa Vermelha”, “A Orfã” e “Lanterna Verde” (o que já diz tudo), “Fúria de Titãs 2″ se passa dez anos após os eventos do primeiro filme. Desta vez, encontramos o semideus Perseu (Sam Worthington, que retorna com uma cabeleira e uma atuação dignas de Nicolas Cage) vivendo tranquilamente como pescador em sua aldeia na beira do mar e criando seu filho Hélio (John Bell) após a morte de sua esposa Io.

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Como se imagina, essa paz não irá durar muito, pois uma aliança entre Hades (Ralph Fiennes, o Voldemort da franquia “Harry Potter”) e Ares (Edgar Ramírez, da minissérie “Carlos”) tentará destronar Zeus (Liam Neeson, de “Esquadrão Classe A”) e promover o retorno do poderoso Cronos (que, como todo bom conhecedor da mitologia grega sabe, foi o pai de Zeus e Hades, que tentou matá-los quando ainda eram crianças), aprisionado nas profundezas do Tártaro. Assim, caberá a Perseu – exatamente como no primeiro filme – arregimentar alguns guerreiros, enfrentar dois ou três monstros e descer ao submundo para encontrar uma arma que o permita derrotar a gigantesca ameaça do clímax.

O argumento genérico não seria nenhum problema se o roteiro elaborado a seis mãos fosse capaz de lidar com estas questões de forma eficiente – o que, infelizmente, não acontece. Para piorar, a história apela para uma psicologia barata na qual todo o imbróglio envolvendo o deus da guerra Ares ocorre simplesmente porque seu pai, dentre os 64 filhos que teve ao longo de sua vida imortal, parece ter uma predileção especial por Perseu. Assim, temos um deus da guerra não apenas mimado, mas que fica chorando o tempo todo por inveja do irmão mais famoso.

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Sem contar que, obviamente, o plano para liberar Cronos na Terra não tem a menor lógica, assim como a patética crise de consciência de Hades – aquele mesmo que foi derrotado por Zeus no filme passado – , que parece ser colocada na trama apenas para dar uma oportunidade a Liam Neeson e Ralph Fiennes demostrarem mais uma vez que são bons atores até por trás de barbas falsas.

O destino dos protagonistas não é muito melhor. Presos a diálogos pomposos e dignos de livros de auto ajuda (no qual sobra até um ‘eu sinto o bem em você’, de fazer corar George Lucas), nossos heróis agem constantemente como se fossem apresentados pela primeira vez àquele universo fantástico – após ter enfrentado a Medusa, o Kraken, caranguejos gigantes e quimeras de duas cabeças, Perseu ainda solta um “não pode ser verdade” quando encontra um ciclope gigante na floresta.

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Pior só o papel da Rainha Andrômeda (Rosamund Pike, de “007 – Um Novo Dia Para Morrer”), um personagem tão descartável quando imbecil, capaz de abandonar suas tropas no meio de uma batalha para ir sabe-se lá aonde com Perseu e que, ao ver uma montanha explodindo em fogo e lava e seres monstruosos se aproximando, simplesmente comenta com seu guerreiro: “Cronos está próximo”. Certo, obrigado por avisar.

Mesmo os supostos alívios cômicos não funcionam a contento. No papel de Agenor, filho de Poseidon, Toby Kebbel (“Aprendiz de Feiticeiro”) até consegue ser engraçado em alguns poucos minutos. Lamentável, mesmo, é o desperdício de Bill Nighy (franquia “Anjos da Noite”) como o deus caído Hefestos. Ator de humor refinado e presença mais do que carismática, sua aparição chega a elevar o nível do filme a um patamar diferente e a nos fazer imaginar que poderemos contar com seu talento por um bom tempo. Contrariando todas as regras do bom senso, porém, seu personagem é logo escanteado. Até mesmo a aparição da coruja metálica Bubo – um dos destaques do filme original, de 1981 – parece deslocada e sem contexto.

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E por mais que os efeitos especiais mereçam um destaque especial (as criaturas estão cada vez mais realistas, com uma atenção especial para a quimera) e a direção de arte tenha melhorado muito (é notável o trabalho realizado na criação do Tártaro e da cena do labirinto, com um mecanismo que lembra o de um relógio), a direção de Jonathan Liebesman só se foca no ritmo intenso, fazendo com que até isso seja desconsiderado.

Esquecendo que a obra seria convertida posteriormente para 3D, o diretor filma as cenas de ação em planos fechados, com a câmera sempre em movimento e com cortes dignos de Michael Bay, o que torna a maioria delas virtualmente impossíveis de serem apreciadas na projeção tridimensional.

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Para complicar mais a situação, Liebesman não tem a menor noção de espaço, prejudicando de forma gritante diversas sequencias no filme, como numa simples cena de luta entre quatro pessoas. Veja-se o embate dos guerreiros contra o Ciclope (no qual, depois de cinco minutos, é que se percebe que, na verdade, eram dois ciclopes), na luta contra o Minotauro (na qual só se descobre que aquele era o Minotauro depois que este está morto) e no confronto final com Cronos, um ser de lava e rocha com mais de 500 metros de altura e com a mesma inteligência do Kraken, ou seja, nenhuma (e cujo enfrentamento é filmado sem noções de distância, perspectiva e proporcionalidade).

Contando com cenas involuntariamente engraçadas e bizarras – como o visual papai noel de Liam Neeson e o momento, já antológico, no qual Neeson e Fiennes saem pelo campo de batalha como velhos amigos soltando juntos raios e bolas de fogo – , “Fúria de Titãs 2″ vem comprovar que sempre é possível piorar o que já era ruim.

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Fúria de Titãs 2

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(Wrath of the Titans, EUA, 2012)

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Leia também a reportagem:

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+ Marcio Santos

Márcio Santos é jornalista e consultor na área de comunicação. Crítico de cinema nas horas vagas e cinéfilo desde sempre, mantém o blog A Mosca Branca (amoscabranca.com),comenta sobre filmes e séries em rádios de Curitiba e tem, há cerca de 10 anos, o hábito de ver pelo menos um filme por dia.

3 Comentários

  • 12 de setembro de 2012 | Permalink |

    Olha ao ver o primeiro filme a decepção foi demasiada. Mudaram totalmente a história. E os efeitos especiais deixaram o longa muito artificial. Tiraram a coruja – ponto máximo do original. Enfim, um desastre. Finnes e Neeson mostram que são bons mesmo com um roteiro pífio. Abraço do Gonçalves.

  • RAFAELNo Gravatar
    2 de maio de 2012 | Permalink |

    ASSISTI………… NÃO TÃO RUIM QUANTO OS VINGADORES DA MARVEL…….. PELO MENOS TEM UM ROTEIRINHO FRACO… AO CONTRÁRIO DE OS VINGADORES QUE NÃO TEM NENHUM…

  • FokixNo Gravatar
    30 de março de 2012 | Permalink |

    Nossa tinha tanta expectativa com esse filme, o 1º realmente foi um desastre no 3D e o roteiro deixou muito mas muito a desejar, sem contar o Filme que foi muito, muito Rápido sequencias de ação quase inexistentes com tão poucas lutas de verdade, muito rápidas, sem desenvolvimento e sem saberem desenvolver todo o seu potencial esse foi um grande erro do 1º Filme e pelo jeito não conseguiram concertar o erro nessa sequencia tão esperado….. Mas mesmo assim eu terei que conferir o filme pessoalmente, mas agora já sei que não será em 3D …. não irei jogar o meu dinheiro fora por algo que não vale a pena ………. Mas como fan de BlockBusters e de Filmes com ação e muitos efeitos especiais, terei que conferir …… Fazer oque … terei que ir cedo e caso fique muito decepcionado aproveito e vejo Jogos Vorazes na Seguida para compensar a decepção ………..