Carmine Infantino (1925 – 2013)

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Morreu o artista, editor e mestre dos quadrinhos Carmine Infantino, aos 87 anos. Ele morreu na quinta (4/4), após inúmeras contribuições ao gênero dos super-heróis, tendo sido responsável por trazer os personagens fantasiados de volta à ativa nos anos 1950, ao lançar a chamada a Era de Prata dos quadrinhos. Mesmo que o seu nome não seja tão conhecido fora dos gibis, é possível afirmar que muitos dos recentes sucessos de bilheteria e de audiência na TV não teriam sido concebidos sem o seu legado.

Infantino nasceu no Brooklyn, em Nova York, no ano de 1925. O interesse pela ilustração foi despertado ainda na escola, começando desde cedo a trabalhar como freelancer para publicações de quadrinhos. Seu primeiro trabalho publicado pela DC Comics, empresa para a qual dedicaria boa parte da carreira, veio em 1947, em uma das edições do primeiro Flash. Já naquela história, ele introduziria uma nova personagem marcante, a heroína Canário Negro.

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Os quadrinhos de super-herói viviam sua Era de Ouro, mas não demorariam a passar por um período de vacas magras. Após a 2ª Guerra Mundial, havia a impressão de que as figuras heroicas, que outrora serviram de inspiração para a nação, tinham perdido para sempre o seu impacto. Os gibis do gênero foram cancelados às pencas ao longo da década de 1950 e os quadrinhos passaram a sugar de outras fontes, como western, terror, histórias criminais e romance. E provavelmente teriam continuado por este caminho, se Infantino não contestasse as regras.

Em 1956, Carmine conduziu o relançamento do Flash, ainda hoje um dos personagens mais memoráveis da editora. Flash fora criado em 1940 e deixara de ser publicado nove anos depois. A releitura veio com o auxílio do roteirista Robert Kanigher – mas o visual, inclusive o famoso figurino vermelho, foi de inteira responsabilidade de Infantino.

Aquele herói que Infantino desenhou não era o Flash dos anos 1940. Era um novo e vibrante herói, Barry Allen, que aparecia pela primeira vez nos gibis a partir da edição 4 da revista “Showcase”. Na capa desenhada por Infantino, o Flash surgia correndo para fora de um pedaço de celuloide de filme, antecipando o apelo que os super-heróis um dia teriam no cinema. O sucesso foi tanto que vários outros heróis correram atrás dele, dando início ao renascimento do gênero – a Era de Prata -, que relançou a DC Comics no mercado como a editora que se conhece até hoje: sinônimo de super-heróis.

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A boa recepção do Flash confirmou que um número considerável de leitores ainda se interessava por super-heróis. Aquele pontapé inicial transformou Infantino em um dos quadrinistas mais influentes da sua geração. Com o personagem, ele abriu diversas portas que reverberam até hoje na editora. O encontro de seu herói com o Flash dos anos 1940 deu início ao conceito de Terras paralelas – multiverso – que se provou um marco da ficção e culminou no clássico dos quadrinhos dos anos 1980, “Crise nas Infinitas Terras”. Mas praticamente cada edição do herói desenhada por Infantino pode ser considerada genial, dando origem a uma das galerias de vilões mais famosas dos quadrinhos, além de heróis coadjuvantes inesquecíveis, como Kid Flash e o Homem Elástico, e uma clássica disputa de velocidade com o Superman. Seu traço esteve presente nos gibis do Flash por mais de 30 anos – e este não foi o único gibi que ele retocou.

O Batman, por exemplo, também vivia período de entressafra em meados dos anos 1960, e foi a Infantino que a DC Comics confiou a tarefa de remodelar o herói. A sua versão do Batman, que ganhou novas cores e remetia, com seu cinto de utilidades, à James Bond, serviu de inspiração para a clássica série de TV de 1966. Aquele visual perdurou intocado por duas décadas e, apesar de modificações pontuais, redefiniu a forma como os leitores reconhecem Batman até hoje.

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No gibi de Batman, ele ainda desenvolveu personagens secundários que ganhariam grande projeção, entre eles a vilã Hera Venenosa e a jovem Barbara Gordon, que na série de TV se tornaria Batgirl. Infantino também criou, nos anos 1960, o herói fantasma conhecido como O Desafiador (Deadman) e o bizarro Homem-Animal, que assumia os poderes de diferentes animais, além de ter desenhado diversas aventuras do herói espacial Adam Strange.

A partir de 1966, ele passou a desenhar todas as capas de revistas da editora, criando uma identidade visual marcante nos lançamentos da DC. De olho no talento do rival, Stan Lee, o “cabeça” da Marvel, fez uma contra-proposta para levá-lo para o seu time. Não adiantou. O artista se transformou, à sua maneira, no Stan Lee da DC Comics, tendo seu trabalho reconhecido com uma promoção a diretor de arte e, posteriormente, diretor editorial.

Apesar da rivalidade entre as empresas, ele e Lee eram amigos pessoais e se encontravam ocasionalmente para trocar ideias. Foram eles que promoveram, por exemplo, o famoso crossover “Superman vs Homem-Aranha”, lançado em 1977, que pela primeira vez juntou heróis das duas editoras rivais numa mesma revista.

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Quando o assunto era cinema, Infantino era um tanto mais reservado que Stan Lee, cuja marca registrada são as figurações em filmes adaptados de seus quadrinhos. Mas, nos bastidores, ele esteve ativamente envolvido com a concepção de “Superman: O Filme”, o clássico de 1978 que apresentou Christopher Reeve no papel principal.

Ao assumir o cargo de editor da DC Comics em 1971, Infantino promoveu uma nova revolução. Ele foi o mentor da famosa revista que juntou os heróis Arqueiro Verde e Lanterna Verde, que trouxe em suas páginas diversos problemas sociais relevantes da época, como o racismo, o desemprego e principalmente as drogas. Infantino assumiu a briga com a censura para publicar, sem o nefasto selo do Código de Ética – que garantia a proibição de diversos tabus nos quadrinhos – , a histórica edição que revelou o vício em heroína do herói Ricardito, o parceiro adolescente do Arqueiro Verde. Foi a maior porrada que os quadrinhos tinham estampado até então.

Ele também lançou a revista do Monstro do Pântano, que acabou servindo de base, na década seguinte, para a criação do selo Vertigo, dedicado aos quadrinhos adultos da editora, e deu aval para o roteirista Denny O’Neal “recriar” Batman como um “Cavaleiro das Trevas”, em histórias sombrias, que romperam com a imagem camp da série televisiva. Sob a sua tutela, Batman ganhou todos os ingredientes que acabaram chegando ao cinema nos filmes de Christopher Nolan, a começar pelo vilão Ra’s al Ghul.

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Foi Infantino quem contratou Denny O’Neal e diversos outros gênios dos quadrinhos, que mudaram a cara da editora nos anos 1970, lendas como Neal Adams e Dick Giordano, dois dos melhores artistas que já desenharam Batman, além de trazer de volta o mito Joe Kubert para ilustrar o Tarzan definitivo e ninguém menos que o grande astro da Marvel Comics, o rei dos quadrinhos Jack Kirby, que com sua benção criou o mais impactante vilão da história da DC Comics, Darkseid.

Cheio de ideias, ele ainda inventou diversos personagens em parceria com os novos roteiristas que trouxe à bordo da companhia, entre eles o Alvo Humano, que chegou a ganhar série de TV (“Human Target”).

Infantino não permaneceu na DC pelo restante da carreira. Desentendimentos causados por sua ousadia o levaram a finalmente aceitar o convite de Stan Lee e ilustrar algumas edições da Marvel no início dos anos 1980, onde, inclusive, atuou na criação dos quadrinhos baseados na saga “Star Wars”. No entanto, ele retornou ao universo do Flash a partir de 1981, ilustrando as edições até a “morte” do herói, na famosa “Crise nas Infinitas Terras”. Ainda continuou envolvido com a editora nos próximos anos, concebendo uma tirinha do Batman para jornal, que teve vida curta.

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Antes de se aposentar, lecionou artes visuais e ajudou a formar uma nova geração de quadrinistas. A sua contribuição é constantemente realçada pelos colegas de profissão. A Infantino, atribui-se a construção da ponte entre a Era de Ouro e a Era de Prata dos quadrinhos e a salvação do gênero dos super-heróis. Em 2000, seu nome foi incluso no Hall da Fama dos quadrinhos.

Nem tudo são flores, no entanto. Em 2004, Infantino voltou aos holofotes em função de um processo que moveu contra a DC, clamando pelos direitos dos personagens que concebera enquanto trabalhava como freelancer – muitos destes, nas edições do Flash. O processo suscitou a discussão sobre o real direito de um artista na indústria dos “comic books”.

Desentendimentos à parte, a DC liberou uma nota emocionada a respeito de sua morte. “Poucas pessoas nesse mundo tiveram tanto impacto na indústria como Carmine. Ele fez parte de um dos períodos mais bem sucedidos da nossa história e definiu o rumo de personagens que são vistos até hoje”, declarou o editor Dan DiDio.

Até Marvel louvou Infantino por suas “numerosas contribuições com a indústria dos quadrinhos e seu olhar único em relação à arte e à maneira de contar histórias”. Se alguém foi capaz de fazer DC e Marvel falarem a mesma língua, este alguém foi mesmo Carmine Infantino.

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+ Louis Vidovix

Louis Vidovix é publicitário, leitor voraz, cinéfilo incorrigível e fã das séries de TV. Expõe suas opiniões no blog Acho Melhor Não Ler

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