As Melhores Coisas do Mundo é retrato adolescente anti-Malhação

Publicado em: 01 jan 2011 por Rodrigo de Oliveira

Laís Bodanzky é uma das cineastas mais competentes e interessantes que surgiram no Brasil nos últimos 10 anos. Com apenas três filmes de ficção no currículo, poderia parecer um tanto precipitado afirmar isso. Mas quem possui “Bicho de Sete Cabeças” (2001), “Chega de Saudade” (2007) e, agora, “As Melhores Coisas do Mundo” em sua filmografia pode – e deve – receber todos os louros que merece. Com roteiro assinado por Luiz Bolognesi, baseado livremente na série de livros “Mano”, de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto, o novo trabalho da cineasta transmite um saudável ar de jovialidade ao cinema brasileiro.

Quantas produções retratam a juventude atual de forma apropriada no país? Se você pensou em “Malhação”, pense de novo. “As Melhores Coisas do Mundo” é tudo o que a novelinha global deveria ser, mas nunca foi. Mostrando adolescentes cheios de hormônios, dúvidas, anseios, preocupações e neuroses, a trama do longa-metragem acerta em cheio por conseguir transportar o linguajar, as atitudes e os problemas da adolescência sem cair na armadilha da lição de moral e sem condescendência. Consegue ser um retrato bastante realista, lançando mão inclusive de atores não profissionais para criar um clima ainda mais próximo do realismo.

Na trama, acompanhamos o cotidiano do adolescente Mano (Francisco Miguez), um jovem de classe média apaixonado por uma colega da escola, mas que vem sofrendo com problemas em casa. Seus pais, os professores Camila (Denise Fraga, de “O Signo da Cidade”) e Horácio (Zé Carlos Machado, de “A Casa de Alice”), estão passando por uma separação problemática, que acaba afetando tanto Mano quanto seu irmão mais velho, Pedro (Fiuk, o filho do cantor Fábio Jr.). Este tem na namorada seu porto seguro, sua grande paixão. Mas uma pedra no caminho da relação pode fazer com que tudo venha abaixo.

Enquanto isso, Mano tenta conquistar sua colega de escola (protagonista de um pequeno escândalo entre os alunos), enquanto se diverte com os amigos inseparáveis Carol (Gabriela Rocha) e Deco (Gabriel Illanes), encara problemas relacionados a preconceitos na escola, pratica seu violão e vai, enfim, vivendo as melhores coisas do mundo.

Apesar de parecer uma sinopse um tanto alto-astral e do próprio nome pressupor um filme leve, “As Melhores Coisas do Mundo” é bem mais profundo. O roteiro de Luiz Bolognesi é excelente nesse quesito, por trazer temas como a homossexualidade, a falta de privacidade, o preconceito nocivo, o despertar da puberdade, entre tantos outros temas, descortinados de forma inteligente e orgânica dentro do longa-metragem.

Outro ponto positivo é a preparação do elenco, comandada por Sérgio Pena, que consegue manter um padrão de qualidade na performance dos jovens não-atores, transformando o filme em um quase docudrama. Está claro que é uma ficção. Mas o elenco parece tão natural em seus papéis, vivendo situações tão recorrentes nesta faixa de idade, que o tom chega muito próximo do documentário. Méritos de Pena, de Bondanzky e, claro, dos jovens que protagonizam a história.

Francisco Miguez, o tímido Mano, tem uma estreia maiúscula, conseguindo carregar muito bem o filme, mantendo o interesse do espectador ao longo de sua trajetória. Longe de ser o bom moço, que só tem pureza no coração, Mano tem defeitos, como preconceito e imaturidade. Natural em um rapaz de sua idade, que ainda não amadureceu completamente.

É interessante notar como seu amadurecimento vai acontecendo durante a trama e como algumas coisas que o incomodavam demais no começo logo se tornam lembranças longínquas. Essa mudança do personagem é bem retratada pelo garoto, que desponta como boa promessa, assim como seus parceiros de tela Gabriela Rocha e Gabriel Illanes. Fiuk, protagonista da atual temporada de “Malhação”, carrega nas tintas do estilo emo para viver seu personagem Pedro e também tem uma boa performance.

Quanto ao elenco adulto, Denise Fraga, Zé Carlos Machado e Gustavo Machado (de “O Amor Segundo B. Schianberg”) defendem muito bem seus papéis, dando credibilidade aos seus dramas. Também é curioso perceber que dois atores mais conhecidos por suas carreiras adolescentes dão as caras em “As Melhores Coisas do Mundo” como professores, quase como se estivessem passando o bastão para essa nova geração. É o caso de Caio Blat e Paulo Vilhena, em atuações corretíssimas, que servem como jovens mestres para os ainda mais jovens pupilos.

Vilhena já havia surpreendido com uma boa participação no filme anterior de Bodanzky, “Chega de Saudade”, e prova que, quando bem dirigido, consegue ser um ator convincente. Blat é mais rodado que seu parceiro de tela, participou de inúmeras novelas desde criança, encabeçou filmes como “Carandiru” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, e tem neste novo trabalho a tarefa de viver um professor moderno que precisa vender confiança ao espectador. O ator é bem sucedido em sua performance, fazendo com que seu arco dentro do filme não seja visto com maus olhos, o que é relevante para seu personagem.

Com temas pertinentes em uma roupagem interessante e moderna, muito bem montado pelo sempre competente Daniel Rezende (de “Cidade de Deus”), “As Melhores Coisas do Mundo” soube capturar a juventude brasileira como nenhum outro filme do país e merece ser visto, não importando a idade do espectador. Enquanto o adolescente conseguirá se ver retratado, os adultos poderão ter uma pista de como a geração de hoje, criada com computadores e celulares, digere a solidão, o medo do estereótipo, o nervosismo da primeira vez, entre tantos outros temas. John Hughes, o mestre dos filmes teens dos anos 80 (“Clube dos Cinco”, “Gatinhas e Gatões” e “Curtindo a Vida Adoidado”) aprovaria, de algum lugar, muito orgulhoso.

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As Melhores Coisas do Mundo

(Brasil, 2010)

Lançamento em DVD

 ★★★★½ 

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