
A esta altura, boa parte dos fãs do primeiro “Jogos Mortais” (existem) já desistiram de acompanhar a franquia, que nos últimos capítulos tem se tornado cada vez mais episódica e hermética. Especialmente os dois últimos filmes, que, sem explicações ou motivações convincentes para as ações dos personagens, correm na direção de uma absurda reviravolta final, com o objetivo exclusivo de criar expectativa pelo episódio seguinte.
“Jogos Mortais VI” começa mais uma vez de onde parou o capítulo anterior, com o detetive Hoffman (Costas Mandylor) assumindo o legado de mortes de Jigsaw (Tobin Bell). Mas finalmente chegam respostas – e uma bem-vinda dose de humor negro.

O filme de 2004 formou um nicho diferenciado no horror: a tortura pornográfica, que rendeu “O Albergue” (2005) e “Turistas” (2006), e tem como elemento central não o suspense, mas o sadismo. Já suas continuações são desdenhadas pela falta de originalidade. Uma simplificação que desconsidera o fato de “Jogos Mortais” ser a única franquia de fazer sucesso com um “protagonista” morto. Jigsaw morreu em 2006, de câncer, e não voltou à vida como Jason Vorhees ou Michael Myers. O psicopata continua bem morto, reaparecendo esporadicamente na mesa de autópsias, em flashbacks e em gravações antigas. Claro que isso não impediu seus planos de crueldade.

Na nova sequência, o câncer volta a ganhar relevo, explicando finalmente as ações do criminoso. Enquanto morria, ele sentia repulsa por quem gozava de boa saúde, mas a desperdiçava. Os alvos de seus jogos de tortura eram pessoas que não valorizavam a própria vida. Agora, após a morte, seu testamento clama pela vingança definitiva.
Seus “herdeiros”, Hoffman e Jill (Betsy Russell), a viúva de Jigsaw, criam o jogo final para satisfazer o ódio do morto. A vítima, desta vez, é um executivo de seguros de saúde, que se especializou em encontrar falhas na aplicação das apólices, negando a cobertura de tratamentos mais caros a quem precisa – inclusive o próprio Jigsaw.

As empresas de saúde tem poder demais? Os políticos e os consumidores de seus serviços são incapazes de conter seus excessos? Desta vez, não é Michael Moore quem acusa – como no documentário “Sicko”. É Jigsaw. A vingança de Jigsaw coloca na mira o sistema de saúde dos Estados Unidos, apresentado como verdadeiro vilão dessa saga de horror.
O resultado é o melhor filme da série desde a primeira sequência – e o primeiro a fazer o público torcer pelas torturas. Mas esta injeção de vigor talvez tenha chegado tarde demais. O impacto do chamado “torture porn” já não choca mais e “Jogos Mortais VI” foi suplantado nas bilheterias do último Halloween americano por um horror sem sangue, “Atividade Paranormal”.
Jogos Mortais VI (Saw VI, EUA, 2009)































