
Finalmente os fãs conhecerão o aguardado documentário “This is it”, com os últimos ensaios de Michael Jackson, registrados dias antes de o cantor morrer, em 25 de junho. E irão babar, gritar, chorar, pular, dançar, como se o cantor estivesse vivo, ao vivo, num telão projeto diretamente de um palco do além.
O longa entrou oficialmente em cartaz na quarta, 28 de outubro, após uma pré-estreia mundial em Los Angeles, que teve seu tapete vermelho transimitido para o mundo todo pela internet.
O material foi selecionado a partir de cerca de 100 horas de filmagens de ensaios e bastidores da turnê que o cantor faria na Inglaterra, e tem direção de Kenny Ortega, o cineasta e coreógrafo da franquia “High School Musical”. Ortega estava trabalhando com Michael Jackson na produção da nova turnê, e registrava os bastidores para incluí-los num DVD sobre os shows, que nunca foram realizados.

Logo na abertura do filme, um texto solene avisa que aqueles ensaios se tornariam a mais grandiosa turnê que Michael Jackson faria em sua carreira. Mas nunca vamos chegar a saber o que teria sido “This Is It” ao vivo – já dizia o gênio Didi: treino é treino e jogo é jogo. Mesmo que a edição se esforce em colocar os esboços das canções na mesma ordem que Michael costumava cantar nos shows – da abertura com “Wanna Be Startin’ Somethin’” ao encerramento com “Man On The Mirror”.
A maioria das cenas foi gravada em junho nos palcos fechados do Staples Center de Los Angeles e The Forum em Inglewood, na Califórnia, onde Michael preparava a série de 50 shows que faria na O2 Arena de Londres. Longe do público. E. como se sabe, longe do público Michael não costumava dar tudo de si, visando principalmente se poupar para os shows reais.

Na véspera, o diretor Kenny Ortega tentou hypar o resultado, proclamando seu documentário como sendo “poderoso, comovente, entretido e grandioso”. É muito bom, mas não faz – nem poder fazer – jus ao hype.
Ortega não tem culpa. Seu esforço em mostrar um Michael Jackson glorioso, banhado em luzes coloridas, até chega a emocionar. Mas parte do material não tem resolução suficiente para a telona – era para ser um making-of, um extra de DVD, antes de a tragédia mudar o destino das imagens.
Conforme as músicas são ensaiadas, o público começa a ter idéia da grandiosidade do que estava por vir. Entre as novidades do espetáculo havia uma tela de cristal líquido em três dimensões, a maior do mundo, e um infinidade de dançarinos, acrobacias, um coro de crianças e pelo menos dez vídeos originais, que seriam projetados junto às apresentações de seus hits ao vivo.

Vemos apenas um pouco dessas imagens. Durante a execução de “Smooth Criminal”, por exemplo, o cantor vai parar dentro do filme “Gilda”, clássico de 1946 sobre a mulher fatal definitiva do cinema (interpretada por Rita Hayworth). Michael escapa de bandidos e interage com os personagens em preto e branco.
Para os fãs, que esperam pelo momento de levantar da poltrona e transformar o cinema numa pista de danças, o hit “Thriller” pode se mostrar a maior decepção da projeção. A música aparece em nova versão com direito a aranhas gigantes, fantasmas e múmias de “trem fantasma”, diluindo sua proposta original, que colocou zumbis na imaginação pop e deu aos videoclipes qualidade cinematográfica. A famosa coreografia, felizmente, sobreviveu e é apresentada no palco.
Apenas três canções aparecem nas telas com essa preocupação cenográfica diferenciada. A última é “Earth Song”, que inclui um filminho sobre uma garotinha que tenta salvar uma planta da destruição das máquinas.

Esses segmentos são entrecortados por imagens de making-of, com artes conceituais e animação 3D inacabada. Mas, de um modo geral, há poucas cenas de bastidores. O filme contenta-se em ser um registro dos ensaios e não um documentário sobre os últimos dias da vida do cantor. No fundo, era o que os fãs queriam mesmo.
Como o próprio Ortega faz questão de ressaltar, “This Is It” é para os fãs. Uma celebração musical que, durante 105 minutos, faz esquecer a complexidade de seu intérprete. Em nenhum momento é apresentado o contexto de suas imagens. Nem pelo lado da morte iminente, nem pelo fato de representarem um retorno do “rei do pop”, após um autoexílio forçado pela repercussão negativa de seu julgamento por pedofilia, que afetou tanto sua saúde física quem financeira. Tudo o que existe fora do palco é autisticamente ignorado. Mas os verdadeiros fãs sabem que aquele homem sob os spots estava em busca de redenção, voltar por cima de forma triunfal. Por isso esforçava-se tanto, visando concertos inesquecíveis, quem sabe ao custo da própria vida.

Exigente como era – numa das cenas, ele interrompe o ensaio para reclamar da falta de “amor” dos dançarinos -, Michael Jackson não aprovaria um lançamento tão apressado e incompleto como seu último trabalho. Mas “This Is It” já diz no título: é só isso que sobrou. E isto é bastante, um concerto fantasma, que Ortega teve a sorte de registrar para virar o filme que jamais foi planejado. E que vai virar um fenômeno como praticamente tudo o que Michael Jackson tocou.
Junte-se a isso o calendário bizarro de sua exibição, o fato de “This Is It” só poder ser visto durante duas semanas em todo o mundo. Depois, o filme será retirado dos cinemas, possivelmente para dar tempo de ganhar um lançamento em DVD e Blu-Ray ainda para este Natal.
“This Is It” também é o nome de uma música inédita, composta por Paul Anka (do velho hit dos anos 60 “Diana”), que Michael Jackson tinha gravado nos anos 80 e que finalmente vem à luz nos créditos finais do documentário. Ela foi lançada em single e integra a coletânea em CD duplo, lançada na segunda, 26 de outubro, que serve de companhia musical ao filme.

Toda essa profusão de lançamentos póstumos tem ajudado a manter Michael Jackson nas paradas de sucesso e bastante vivo na mídia. Diante do imenso interesse do público, a Sony prevê transformar o “evento” “This Is It” nas duas semanas mais lucrativas da história dos blockbusters americanos.
O marketing da empresa chegou a criar sites especiais para centralizar a venda de ingressos – inclusive este aqui no Brasil.
Com base na arrecadação do filme, nas vendas de álbuns e em negócios fechados desde a morte do cantor, os administradores de seu patrimônio esperam gerar mais de US$ 200 milhões de receita até o final do ano.

Mas alguns fãs já começam a reclamar da ganância com que os envolvidos no filme e discos lançados estão explorando o cadáver de seu ídolo, sacudindo-o para arrancar-lhe as últimas moedas. A ânsia mercantilista desses lançamentos inspirou uma campanha na internet que deixa claro o mal-estar.
O site This Is Not It é seco e polêmico, ao acusar as pessoas que tinham interesses no retorno do artista de serem os responsáveis indiretos por sua morte.
“Foi desumano. Michael Jackson precisava de ajuda, mas eles estavam ocupados demais saboreando os lucros que a turnê teria gerado”, afirma o site, que usa de licença poética para dizer que o coração do artista parou “diante da incrível pressão que sofreu”. Para os criadores do site, a verdadeira causa da morte não foram as drogas em que ele era viciado. Michael Jackson foi vítima de “anos de maus-tratos, calúnias e de uma imprensa má”.

Eles vão além, ao dizer que o filme divulga “mentiras para esconder a responsabilidade” dos organizadores dos shows. Segundo o site, Michael pesava 49 quilos, precisava de ajuda para comer e subir escadas, era obrigado a cancelar ensaios e era mantido à base de remédios durante o dia e a noite.
De fato, o cantor aparece bastante magro nas imagens do documentário. Não há como deixar de reparar em sua estranha forma física, mesmo sob camadas de maquiagem. Até depois da morte, Michael Jackson continua a intrigar e inspirar teorias conspiratórias.
This Is It (This Is It, EUA 2009)































